quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Morto de amor

Que é aquilo que reluz

pelos altos corredores?

Fecha essa porta, meu filho,

acabam de dar as onze.

Em meus olhos, sem querer,

brilham quatro lampiões.

Talvez ainda aquela gente

esteja a polir o cobre.



*



Alho de agónica prata

o quarto minguante, põe

cabeleiras amarelas

sobre as amarelas torres.

A noite chama a tremer

a vidraça das varandas,

perseguida pelos mil

rafeiros que não a conhecem,

e um olor de vinho e âmbar

solta-se dos corredores.



*



Brisas de cana molhada

e rumor de velhas vozes

ressoavam pelo arco

quebrado da meia-noite.

Os bois e as rosas dormiam.

Somente nos corredores

as quatro luzes clamavam

com o furor de S. Jorge.

Tristonhas mulheres do vale

desciam seu sangue de homem,

tranquilo de flor cortada

e amargo de coxa jovem.

E velhas mulheres do rio

choravam ao pé do monte

um minuto intransitável

de cabeleiras e nomes.

Fachadas de cal tornavam

quebrada e branca essa noite.

Ciganos e serafins

tocavam acordeões.

Minha mãe, quando eu morrer,

que se informem os senhores.

Põe telegramas azuis

que cheguem ao Sul e ao Norte.

Sete gritos, sete sangues,

sete duplas papoulas,

quebraram opacas luas

pelos escuros salões.

Coberto de mãos cortadas

e de grinaldas de flores,

o oceano dos juramentos

ressoava, não sei onde.

E o céu batia nas portas

do brusco rumor do bosque,

enquanto as luzes clamavam

pelos altos corredores.


Garcia Lorca

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